TERRA DE SANTA CRUZ – Adélia Prado



Adélia Luzia Prado Freitas (Divinópolis, 13 de dezembro de 1935) é uma escritora brasileira. Seus textos retratam o cotidiano com perplexidade e encanto, norteados pela sua fé cristã e permeados pelo aspecto lúdico, uma das características de seu estilo único.

Adélia representou a revalorização do feminino nas letras e da mulher como ser pensante, ainda que maternal, tendo-se em conta que Adélia incorpora os papéis de intelectual e de mãe, esposa e dona-de-casa; por isso sendo considerada como a que encontrou um equilíbrio entre o feminino e o feminismo, movimento cujos conflitos não aparecem em seus textos.


Publicado pela primeira vez em 1981, TERRA DE SANTA CRUZ traz poesias que revelam uma crise na vida da autora, marcada pela proximidade da velhice e pela perda de algumas certezas e ainda poesias religiosas. Nesta obra, Adélia amplia seu diálogo sobre vida e morte, tristeza e alegria.

02. SOBRE O ESTILO DA AUTORA

a) Adélia Prado é uma escritora contemporânea, editou seu primeiro livro na década setenta, mostrando uma maneira diferente de fazer poesia. Retrata em sua prosa e sua poesia um mundo doméstico, muito particular.

b) Declara que a arte é conseqüência de inspiração, de algo que se poderia denominar místico e religioso.

c) Apresenta situações de teor regional (o interior e até do cenário brejeiro de Minas Gerais).

d) Os temas mais recorrentes são: a descrição de uma sina, de situações especificamente femininas, do espaço da casa, das atividades executadas pelas mulheres, de uma constante referência aos ascendentes e, por último, o que se poderia denominar contraponto: o olhar para o masculino.

d) Em “Terra de Santa Cruz” a autora reúne poemas escritos em linguagem coloquial, inovadora e estranhamente imbuída de religiosidade e erotismo.

03. ABORDAGENS GERAIS

a) Sua poesia resgata, sem exageros, o coloquialismo e o registro oral, e afina a arte dificílima de intitular. Sendo o título quase sempre uma “conexão” com o texto, integrando-se a ele, é de fato marcante observar a relativa falta de alusões a outras leituras que não as bíblicas. De certo modo, em Terra de Santa Cruz, quase não é possível vislumbrar mudanças significativas ou evoluções na sua poesia. A matriz teológica persiste, sob a célebre oposição entre o divino e o humano, como podemos observar neste verso do poema “Terra de Santa Cruz”, que dá título à obra:


“Amai vossos inimigos”.

O que disse: “Quem crer viverá para sempre”, este também

Balouçou do madeiro como fruto de escárnio.

Nada, nada que é humano é grandioso.

b) Embora tenha declarado produzir uma literatura sem pretensão acadêmica ou seguidora de correntes estéticas, Adélia Prado lançou mão da intertextualidade (epígrafe) que se manifesta na abertura das subdivisões da obra:

Território: “…Os tristes sofrimentos da gente…

(João Guimarães Rosa)

Catequese: “ Tomei o livrinho da mão do anjo e o devorei: na boca era doce como o mel; quando o engoli, porém, meu estômago se tornou amargo.”

(Apocalipse 10:10)

Sagração: “… Vem! Vou mostrar-te a noiva…

(Apocalipse 21:9)

c) O eu-lírico de seus versos reproduz uma literatura de tradição de voz feminina (de fonte ibérica medieval; especificamente as cantigas de amigo), de relato das experiências fundamentalmente domésticas, de comportamentos sedimentados por séculos tanto por homens quanto por mulheres, da repressão a que estiveram presas as mulheres, descrevendo as ações femininas determinadas pelo pensamento cristão. Ex. “Cacos Para um Vitral”.

“(…)

Como existiram os santos, Deus existe

E com um poder de sedução indizível.

Quem fez o ouro foi Ele, quem deu tino ao homem

Para inventar o cordão que se põe no pescoço.

Dito assim é tão puro, quase não vejo culpa

Em comprar um pra mim.

Tenho os mesmos desejos de trinta anos atrás,

Imutáveis como os mosquitos na cozinha ensolarada,

Minha mãe fazendo café

E meu pai sentado, esperando.”

d) As figuras de linguagem exploradas pela autora provocam o “absurdo da sua linguagem poética”. O texto parece perder sua lógica racional. A metáfora e o paradoxo são grandes responsáveis por este ilogismo. Ex.: “Miserere”. Outros textos: “Tanta Saudade” e “Branco”.

“Cismei que adoecia e procurei o médico.

Ele não foi perspicaz.

Auscultou, profissional, minhas cavidades

E prescreveu ginástica, redução de calorias, vida calma.

Doía tudo. Aqui dói, doutor, aqui também.

É certo que o senhor nunca deglutiu pedras,

Mas, afianço-lhe, mesmo a água que bebo

É indigesta coisa sólida no meu bucho.

(…)”

e) Adélia se nutre da linguagem coloquial e reinventa o verso longo. Distancia-se do ritmo medido, cerebral, de João Cabral. Adélia escreve instintivamente. Volta-se a ouvir o tom de conversa, o vocabulário familiar dos poetas de 22. A realidade cotidiana mostra-se na linguagem de todos os dias. Ex.: “Casamento”

“Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.”

f) Linguagem despojada e direta, frequentemente lírica. Ex.: “Móbiles”. Outro texto: “Lembrança de maio”.

“Que belo poema se poderia escrever.

Coisas espicaçadoras não faltam,

Hortigranjeiros esperado transporte

E tudo que é necessário:

Tenho que fazer almoço.

Ou supostamente ético

Batia gente na porta,

Tialzi no corador virava as calcinhas todas

De modo a esconder o fundo.

(…)”

Por vezes sua linguagem cai no “despoético”. Ex.: Canga. Outro texto: A Faca no Peito.

“Escrever me subjuga e não entendo,

Tal qual comer, defecar,

Molhar-me de urina e lágrimas.”

g) Com Adélia a experiência abstrata parece ceder lugar a percepções mais concretas da vida, escapando, no entanto das explicações razoáveis. Por ela se processa uma identificação com as coisas por fruição, sem lógicas previsíveis. Ex.: “O lugar da Necrópole”.

“Há quem tendo cantado e batido os dentes no corpo

Já morreu

Há quem tendo falado suas dores secretas

Está hoje selado sob lápides,

Excrescendo sobre mim o seu fantasma

De pessoa verdadeira, rebelada,

De pessoa poética.”

Necrópole (do grego νεκρόπολις, “cidade dos mortos”) é um grande local de sepultamento, também denominado cemitério. Normalmente a palavra necrópole está associada a “campos santos” (locais de enterramento) anexos a centros de grandes civilizações.

h) Deus é personagem principal em sua obra. Ele está em tudo. Não apenas Ele, mas a fé católica, a reza, a lida cristã. Ex.: “A menina e a fruta”. Outros textos: “A face de Deus é vespas”, “Mulher querendo ser boa” (Deus castiga), “A filha da antiga lei”.

“Um dia, apanhando goiabas com a menina,

Ela abaixou o galho e disse pro ar

- inconsciente de que me ensinava –

‘goiaba é uma fruta abençoada’.

Seu movimento e rosto iluminados

Agitaram no ar poeira e Espírito:

O Reino é dentro de nós,

Deus nos habita.

Não há como escapar à fome da alegria!”

i) Há textos que revelam os desejos da voz que fala no texto. As vontades e anseios estão a ponto de explodir. Ex.: “À soleira”. Outros textos: “Lapinha”, “O Anticristo Ronda Meu Coração”.

“O que farei com este meu corpo inóspito

Já que não respondes nem abres a porta?

Tem pena de mim.

Não compreendo nada. Só Vos desejo

E meu desejo é como se eu miasse por Vós.”

j) Adélia costuma dizer que o cotidiano é a própria condição da literatura. Estão em sua prosa e em sua poesia temas recorrentes da vida de província, as pessoas, s parentes, os vizinhos, a missa, um certo cheiro do mato, a gente de sua terra. Ex.: “Os Tiranos”.

“Joaquim meu tio foi imperturbável ditador.

Só uma de minhas primas atreveu-se a casar-se.

As outras ficaram para lhe honrar a memória

Com azedumes e pequenos delírios.”

k) Temas gerais da obra:

. Resignação. Ex.: A Face de Deus é Vespas

“Desde toda a vida a tristeza me acena,

O pecado contra Vosso Espírito”

. Amor tímido. Ex.: Amor.

“Quisera olhar fixamente a tua cara,

(…)

Mas não tenho coragem.”

. Amor sensual. Ex.: O amor No Éter

“Habito nele, quando os desejos do corpo,

A metafísica, exclamam:

Como és bonito!”

. Forte presença da figura divina. Ex.: Legenda com a Palavra Mapa.

“O mapa é a certeza de que existe O LUGAR,

O mapa guarda sangue e tesouros.

Deus nos fala no mapa com sua voz geógrafa.”

. Desejos secretos. Ex.: O Alfabeto no Parque. Outro texto: Lapinha.

“Mas escrevo também coisas inexplicáveis:

Quero ser feliz, isto é amarelo.

E não consigo, isto é dor.

(…)

Não há como não pensar na morte,

Entre tantas delícias, querer ser eterno.”

. O juízo final. Ex.: O Ameno Fato Terrível.

“O que mais me lembra o Juízo

É um jardim ao meio-dia,

Um jardim de rosas.”

l) Características literárias presentes:

. Frieza da linguagem e construção de versos secos (que ressaltam uma determinada conclusão do eu-lírico sobre a vida, ). Ex. “O Falsete”(“Sou uma velha com quem Deus brinca”). Outros textos: “Terra de Santa Cruz”, “Querido Irmão”, “A Cardpideira” e “Noite Feliz”.

. Presença da alusão. Ex.: A Porta Estreita. Outros textos: “O Servo”, “A Boca”, “Uns Outros Nomes de Poesia”(que tem estrutura de oração) e “Sagração”.

“Deus, tem compaixão desta cidade

E de mim que andei em suas ruas”

OBS.: O texto “Trottoir’ faz alusão à prostituição (do francês, trottoir = calçada).

“À voz apaixonada mais inclino os ouvidos,

Aos pulsares, buracos negros no peito,

Rápidos desmaios,

(…) E de afoita esperança

O salto do meu sapato no meio-fio

Bate que bate.”

. Leve metalinguagem.

“O que é PUXA VIDA

VAI SER ARTISTA ASSIM NO INFERNO?

(…)

Compreender o que se fala

É esbarrar na sem-caráter,

Inominável, corisca poesia.”

m) Subdivisão da obra: “Terra de Santa Cruz” apresenta três momentos distintos (Território, Catequese e Sagração). Cada parte da obra está diretamente ligada ao contexto geral – a nova terra. Temos assim um território que, tendo permanecido por longo tempo num plano virginal, passa pelo processo de exploração (descobertas) até alcançar novos conhecimentos, novas descobertas. São essas novas revelações que permitem que o eu-lírico (feminino) perceba a força corpo, logo, o prazer como um estado sagrado. Veja o quadro abaixo:

Território

EPÍGRAFE

FASE

* Texto base:

Limites.

“…Os tristes sofrimentos da gente…

(João Guimarães Rosa)

*A dor da resignação religiosa

Experiência espiritual – corpo e espírito se fundem como se diante da revelação de Deus o corpo alcançasse a graça divina

Catequese

* Texto base: Festa do Corpo de Deus.

* Outros textos: O Falsete, Terra de Santa Cruz e Querido Irmão.

“ Tomei o livrinho da mão do anjo e o devorei: na boca era doce como o mel; quando o engoli, porém, meu estômago se tornou amargo.”

(Apocalipse 10:10)

* Ânsia de se descobrir. A lei parece boa, mas torna o desejo amargo

Despertar da sensualidade -

sua religiosidade adensou-se, assim como sua eroticidade, o que permitiu o surgimento de tensões que revelavam os aspectos mais inusitados de seu misticismo, quase sempre associado a essa mistura entre o sagrado e o profano

Sagração

* Texto base:

Sagração

“… Vem! Vou mostrar-te a noiva…

(Apocalipse 21:9)

* Mergulho no prazer. O sexo absoluto.

Consagração do sexo –

é a cerimônia sexual que permite que o eu-lírico conheça e prove seu corpo. O ato sexual penetra no reino do sagrado pela entrega do corpo

  • Limites

“Uma noite me dei conta de que possuía uma história,

Contínua, desde o meu nascimento indesligável de mim.

(…)

Até os dons, um certo comum apelo ao religioso

E tudo que pesava.”

  • Festa do Corpo de Deus

“Eu te adoro, ó salvador meu

Que apaixonadamente me revelas

A inocência da carne”

  • Sagração

“As vibrações da carne entoam hinos,

Também às que se vira o rosto como a fornicações.

(…)

Uma mulher fornida em sua cama

Pode louvar a Deus.”