LYA LUFT

http://twitter.com/Lya_Luft

“O nosso jeito de sobreviver: Não comendo lixo concreto, mas engolindo lixo moral e fingindo que está tudo bem”.



Quem é Lya Luft? Uma mulher gaúcha, brasileira, que faz cada vez mais, aos sessenta e um anos, o que desde os três ou quatro desejava fazer: jogar com as palavras e com personagens, criar, inventar, cismar, tramar, sondar o insondável. “Tento entender a vida, o mundo e o mistério e para isso escrevo. Não conseguirei jamais entender, mas tentar me dá uma enorme alegria. Além disso, sou uma mulher simples, em busca cada vez mais de mais simplicidade. Amo a vida, os amigos, os filhos, a arte, minha casa, o amanhecer. Sou uma amadora da vida. O que você nunca vai esquecer? Escutar o vento e a chuva nas árvores do imenso jardim que cercava a casa de meu pai, na minha infância”. Puro maravilhamento. O que lhe causa repugnância? Preconceito, hipocrisia. Vale a pena escrever? “Não escrevo porque “valha a pena”, mas porque me faz feliz, simplesmente”. O que falta à literatura brasileira? “Nada, não falta nada. Ela é o que é, simplesmente, cheia de graça, desgraça, florescente, múltipla, lutando com a crise econômica que atinge também as editoras, mas, como não se escreve para ficar rico, tudo bem”. E Deus? “Deus eu imagino como força de vida: luminosa, positiva, imperscrutável”. E o Brasil? Brasil cujo jeito é parecer não ter jeito. “Não quero jamais ter de morar longe dele. Aqui tudo é possível. E tanto está ainda por fazer”. O que fazer para reverter esse quadro de miséria? “Que os responsáveis por isso criem vergonha na cara”. Quem não merece respeito algum de ninguém? “Todos merecem algum respeito, no mínimo compaixão”. Você costuma rezar? “Não tenho nenhuma religião instituída, mas tenho uma profunda visão “religiosa”, sagrada, da natureza, das pessoas, do outro”. Qual é seu momento ideal para escrever? “O momento em que meu livro quer ser escrito. Mas normalmente produzo mais de manhã bem cedo. Gosto de ver o dia nascer, aqui na minha mesa de trabalho e do meu computador”. Se confessa uma mulher tímida, embora não pareça.

Todos esses Anjos

Todos esses Anjos que à noite
agitam cortinas e sussurram frases
que temes entender:
se te tomarem nos braços
se te beijarem na boca,
se te entrarem no corpo,
não te darão certeza de que morrer, viver,
são igualmente suaves e difíceis
loucos e sensatos , e urgentíssimos?

Poderás enfim amar, rendendo-te aquilo
que te aflora com suas asas,
te chama com suas vozes,
te vara constantemente com essa luz,
essa dor.

Lya Luft

Canção das mulheres

Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.

Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.

Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.

Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.

Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.

Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.

Que o outro sinta quanto me dóia idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco – em lugar de voltar logo à sua vida.

Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo ”Olha que estou tendo muita paciência com você!”

Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.

Que se eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.

Que o outro não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.

Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa – uma mulher.

Lya Luft

Canção na plenitude

Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.

O texto acima foi extraído do livro “Secreta Mirada”, Editora Mandarim – São Paulo, 1997, pág. 151.

Lya Luft

Bibliografia:

No Brasil:

- Canções de Limiar, 1964
- Flauta Doce, 1972
- Matéria do Cotidiano, 1978
- As Parceiras, 1980
- A Asa Esquerda do Anjo, 1981
- Reunião de Família, 1982
- O Quarto Fechado, 1984
- Mulher no Palco, 1984
- Exílio, 1987
- O Lado Fatal, 1989
- O Rio do Meio, 1996
- Secreta Mirada, 1997
- O Ponto Cego, 1999
- Histórias do Tempo, 2000
- Mar de dentro, 2000

(Todos os livros foram publicados pelas Edições Siciliano e Mandarim, São Paulo – SP)

- Perdas e ganhos, 2003 – Editora Record

No exterior:

- The Island of the Dead (O Quarto Fechado), E. U. A.

Os dados acima foram obtidos em livros da autora, páginas da Internet e em artigo publicado por Álvaro Alves de Faria, jornalista, poeta e escritor.


http://twitter.com/Lya_Luft : A vida é maravilhosa, mesmo quando dolorida ‘ … (Twitter não oficial da Lya).

Lya Luft

Lya Luft

Trecho Lya Luft

Trecho Lya Luft

“Amadurecer deveria ser requintar-se na busca da simplicidade”.

::: Tecendo a Manhã :::

Um Galo sozinho não tece uma manhã.


Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

João Cabral de Melo Neto


PERGUNTA-SE: O QUE A POESIA DE JOÃO CABRAL QUIS MOSTRAR A TODOS NÓS QUANTO AO INDIVIDUALISMO CADA DIA MAIS CRESCENTE NAS RELAÇÕES?

Literatura Inglesa – William Blake

Retrato de William Blake, por Thomas Phillips.

Retrato de William Blake, por Thomas Phillips.

De acordo com sua biografia, William Blake ( nascido em Londres, 28 de novembro de 17757 a 12 de agosto de 1827), poeta, pintor e ilustrador,  filho de James e Catherine Blake. Ele foi um verdadeiro revolucionário de sua época,  pois, por meio de seus textos, encorajava as pessoas a se deligarem das imposições religiosas e políticas à procura de seus valores e ideais próprios.

Profundamente impressionado com o ritmo de atividades irrefreáveis nas Revoluções Americanas e Francesa, com todas as suas consequências sociais, Blake aplicou princípios revolucionários em suas reflexões acerca do desenvolvimento dinâmico do indivíduo. Sua obra pode ser dividida em dois períodos: antes e depois de Matrimônio do Céu e do Inferno, que li  através de um presente de aniversário de anos atrás de Renan Aversari. No início, as obras de William Blake eram basicamente de natureza poética, com algumas narrativas a respeito de lendas da Inglaterra, composições meditativas e alguns hinos idealizados à natureza. There is no Natural Religion faz parte desse período.

Apenas dois de seus primeiros livros de poesia foram publicados enquanto ele ainda era vivo. São eles: Canções de Inocência e Canções de Experiência. Depois do surgimento de Matrimônio do Céu e do Inferno, Blake entra no período mais criativo de sua carreira e passa a se preocupar com a temática do desenvolvimento interno do ser humano. Foi nesse período que  Blake produziu The Four Zoas e Jerusalem. Não é sem motivo que Matrimônio do Céu e do Inferno representa um marco na carreira de William Blake. Toda sua filosofia está resumida neste livro, totalmente ilustrado e colorido, e merece ser conhecida, dada a sensibilidade e a inteligência  com que foi concebida por este revolucionário de seu tempo. Viveu num período significativo da história, marcado pelo Iluminismo e pela Revolução Industrial na Inglatera. A literatura estava no auge do que se pode chamar de clássico “augustano”", uma espécie de paraíso para os conformados às convenções sociais, mas não para Blake que, nesse sentido era romântico, “enxergava o que muitos se negavam a ver: a pobreza, a injustiça social, a negatividade do poder da Igreja Anglicana e do estado.

Em 1782, após um relacionamento infeliz que terminou com uma recusa à sua proposta de casamento, Blake casou-se com Catherine Boucher. Blake ensinou-a a ler e escrever, além de tarefas de tipografia. Catherine retribuiu ajudando Blake devotamente em seus trabalhos, durante toda sua vida.

No dia de sua morte, Blake trabalhava exaustivamente em A Divina Comédia de Dante Alighieri, apesar da péssima condição física que culminaria no seu fim. Seu funeral, bastante humilde, foi pago pelo responsável pelas ilustrações do livro, e apesar de sua situação financeira constantemente precária, Blake morreu sem dívidas.

Hoje Blake é reconhecido como um santo pela Igreja Gnóstica Católica, e o prêmio Blake Prize for Religious Art (Prêmio Blake para Arte Sacra) é entregue anualmente na Austrália  em sua homenagem.

Vejamos algumas obras desse gênio:

Satã observando o amor de Adão e Eva, Mus. de Belas-Artes - Boston.

Satã observando o amor de Adão e Eva, Mus. de Belas-Artes - Boston.

A criação de Adão, Tate Gallery - Londres.

A criação de Adão, Tate Gallery - Londres.

O Eterno, Whitworth Art Gallery - Univ. de Mancheste.

O Eterno, Whitworth Art Gallery - Univ. de Mancheste.

O círculo da luxúria: Paolo e Francesca, A Divina Comédia.

O círculo da luxúria: Paolo e Francesca, A Divina Comédia.

Nesse enderço você pode encontrar as 182 obras de arte do Blake: http://pintura.aut.org/BU04?Autnum=11.210

Biografia:

  • Poetical Sketches (1783)
  • There is no Natural Religion (1788)
  • All Religions Are One (1788)
  • Songs of Innocence (1789)
  • Book of Thel (1789)
  • The French Revolution: A Poem in Seven Books (1791)
  • A Song of Liberty (1792)
  • The Marriage of Heaven and Hell (1793)
  • Visions of the Daughters of Albion (1793)
  • America, A Prophecy (1793)
  • Songs of Experience (1794)
  • Songs of Innocence and of Experience (1794)
  • Europe, a Prophecy (1794)
  • The Book of Urizen (1794)
  • The Song of Los (1794)
  • The Book of Ahania (1795)
  • The Book of Los (1795)
  • Night Thoughts (1797) (ilustrações)
  • Milton (1804)
  • Grave (1808)
  • Everlasting Gospel (1818)
  • Jerusalem (1820)
  • The Ghost of Abel (1822)
  • Dante’s Divine Comedy (1825) (ilustrações)
  • O livro de Jó da Bíblia (1826) (ilustrações)

Vejamos um trecho da obra Matrimônio do Céu e do Inferno:

Capa da obra pela Editora Madras.

Capa da obra pela Editora Madras.

Provérbios do Inferno

No tempo de semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta.

Conduz teu carro e teu arado sobre a ossada dos mortos.

O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.

A Prudência é uma rica, feia e velha donzela cortejada pela Impotência.

Aquele que deseja e não age engendra a peste.

O verme perdoa o arado que o corta.Imerge no rio aquele que a água ama.

O tolo não vê a mesma árvore que o sábio vê.

Aquele cuja face não fulgura jamais será uma estrela.

A Eternidade anda enamorada dos frutos do tempo.

À laboriosa abelha não sobra tempo para tristezas.

As horas de insensatez, mede-as o relógio; as de sabedoria,

porém, não há relógio que as meça.

Todo alimento sadio se colhe sem rede e sem laço.

Toma número, peso & medida em ano de m´ngua.

Ave alguma se eleva a grande altura, se se eleva com suas próprias alas.

Um cadáver não revida agravos.

O ato mais alto é até outro elevar-te.

Se persistisse em sua tolice, o tolo sábio se tornaria.

A tolice é o manto da malandrice.

O manto do orgulho, a vergonha.

Prisões se constroem com pedras da Lei; Bordéis, com

tijolos da Religião.

A vanglória do pavão é a glória de Deus.

O cabritismo do bode é a bondade de Deus.

A fúria do leão é a sabedoria de Deus.

A nudez da mulher é a obra de Deus.Excesso de pranto ri.

Excesso de riso chora.

O rugir de leões, o uivar de lobos, o furor do mar em procela e a

espada destruidora são fragmentos de eternidade, demasiado grandes para o

olho humano.

A raposa culpa o ardil, não a si mesma.

A alegria  fecunda. Tristeza engendra.

Vista o homem a pele do leão, a mulher, o velo da ovelha.

O pássaro um ninho, a aranha uma teia, o homem amizade.

O tolo, egoísta e risonho, & o tolo, sisudo e tristonho,

serão ambos julgados sábios, para que sejam exemplo.

O que agora se prova outrora foi imaginário.

O rato, o camundongo, a raposa e o coelho espreitam as raízes; o leão, o

tigre, o cavalo e o elefante espreitam os frutos.

A cisterna contém: a fonte transborda.

Uma só idéia impregna a imensidão.

Dize sempre o que pensas e o vil te evitará.

Tudo em que se pode crer é imagem da verdade.

Jamais uma águia perdeu tanto tempo como quando se submete a tomar liçõe do corvo.

A raposa provê a si mesma, mas Deus provê ao leão.

De manhã, pensa, Ao meio-dia, age. Ao entardecer, come. De noite, dorme.

Quem consentiu que dele te aproveitasses, este te conhece.

Assim como o arado segue as palavras, Deus recompensa as preces.

Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução.

Da água estagnada espera veneno.

Jamais saberás o que é suficiente, se não souberes o que é mais que

suficiente.

Ouve a crítica do tolo! É um direito régio!

Os olhos de fogo, as narinas de ar, a boca de água, a barba de terra.

o fraco em coragem é forte em astúcia.

A macieira jamais pergunta à faia como crescer; nem o leão ao

cavalo como apanhar sua presa.

Quem reconhecido recebe, abundante colheita obtém.

Se outros não fossem tolos, seríamos nós.

A alma de doce deleite jamais será maculada.

Quando vês uma Águia, vês uma parcela do Gênio; ergue a cabeça!

Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para pôr seus

ovos, o sacerdote lança sua maldição sobre as alegrias mais belas.

Criar uma pequena flor é labor de séculos.

Maldição tensiona: Benção relaxa.

O melhor vinho é o mais velho, a melhor água, a mais nova.

Orações não aram! Louvores não colhem!

Júbilos não riem! Tristezas não choram!

A cabeça, Sublime; o coração, Paixão; os genitais, Beleza; mãos

e pés, Proporção.

Como o ar para o pássaro, ou o mar para o peixe, assim o desprezo para o desprezível.

O corvo queria tudo negro; tudo branco, a coruja.

Exuberância é Beleza.

Se seguisse os conselhos da raposa, o leão seria astuto.

O Progresso constrói caminhos retos;

mas caminhos tortuosos sem Progresso são caminhos de Gênio.

Melhor matar um bebê em seu berço que acalentar desejos irrealizáveis.

Onde ausente o homem, estéril a natureza.

A verdade jamais será dita de modo compreensível,

sem que nela se creia.

Suficiente! ou Demasiado.

Os Poetas antigos animaram todos os objetos sensíveis com Deuses e Gênios, nomeando-os e adornando-os com os atributos de bosques, rios, montanhas, lagos, cidades, nações e tudo quanto seus amplos e numerosos sentidos permitiam perceber.E estudaram, em particular, o caráter de cada cidade e país, identificando-os segundo sua deidade mental;Até que se estabeleceu um sistema, do qual alguns se favoreceram, & escravizaram o vulgo com o intento de concretizar ou abstrair as deidades mentais a partir de seus objetos: assim começou o Sacerdócio;Pela escolha de formas de culto das narrativas poéticas.E proclamaram, por fim, que os Deuses haviam ordenado tais coisas.Desse modo, os homens esqueceram que todas as deidades residem no coração humano.




Algumas informações foram retiradas de http://pt.wikipedia.org/wiki/William_Blake








Libertinagem – Manuel Bandeira

LIBERTINAGEM

(Manuel Bandeira)

manuel-bandeira
manuel_bandeira_libertinagem

“Libertinagem contém os poemas que escrevi de 1924 a 1930 – os anos de maior força e calor do movimento modernista. Não admira pois que seja entre os meus livros o que está mais dentro da técnica e da estética do modernismo”. (Manuel Bandeira)

SÍNTESE


1. Obra publicada em 1930, Libertinagem é composta por trinta e oito poemas. Embora comporte características da primeira geração modernista, como o humor, os versos livres e brancos, a linguagem mais coloquial e o cotidiano, o toque especial do poeta faz-se presente em todos os poemas: a simplicidade, responsável pelo refinamento da obra.
2. Libertinagem é, portanto, a novidade, o erotismo, a musicalidade, a força de imagens, o cunho biográfico, a paixão pela vida e a visão da morte, a infância, a pureza, a crítica, a liberdade, a saudade, o amor, a alegria, a tristeza, a evasão, a solidão.

CARACTERÍSTICAS DA OBRA:

01. Recusa da poesia comedida. Bandeira não emprega nenhuma métrica padrão. Rejeição aos padrões literários vigentes.
02. Cultivou as formas fixas do Parnasianismo e também fez experiências com o Concretismo.
03. Sua poesia assemelha-se a uma espécie de diário íntimo em que os acontecimentos do mundo se refletem nas imagens da vida íntima e pessoal, como se a expressão poética resultasse da soma entre a confidência e a notação exterior, a contemplação da realidade.
04. Reveste seus poemas de um tom irônico e, tantas vezes, amargo.
05. Poesia Confessional – apresentação de vultos familiares, brincadeiras e festas de ruas, cenas que ficaram na memória do poeta como mágicos.
06. A morte – a morte é tratada com  ironia e humor negro (Poema – Piada).
07. O Lirismo romântico- grande subjetividade onde o poeta demonstra um neo-romantismo.
08. Metalinguagem.
09. A Evasão – cria um mundo paralelo à realidade, onde os desejos e as fantasias são realizados.
10. A solidariedade e religião –

Como elemento da cultura brasileira, o catolicismo se apresenta fazendo menção:

À festas e cerimônias do calendário religioso: “Profundamente”; “Poema de finados” ;

Na referência a figuras do imaginário católico:  O Anjo da guarda”;

Na paródia de preces : “Oração do saco  de Mangaratiba”; “Oração  a “Teresinha do menino Jesus”

Citações bíblicas:  “ Teresa”

Há sempre uma certa ironia na reações entre o poeta e a fé católica.

TEXTOS:
01) Porquinho-da-Índia – Poema de tom narrativo e memorialista. Destaca a pureza, a inocência de uma criança que dedica todo seu afeto a um bicho de estimação. O toque de humor fica por conta do verso final, espécie de conclusão em que se introduz a fala do eu lírico. Epifania.

02) Teresa – Poema-paródia do texto lírico de Castro Alves chamado O “adeus” de Teresa. Antilírico, o poeta revela distância da idealização, confirmando, na última estrofe, a presença das transformações seja no plano físico, seja no sentimental.
O texto de Castro Alves é uma exaltação à beleza e ao erotismo da mulher amada, contudo, a última estrofe revela traição:
“A vez primeira que eu fitei Teresa
Como as plantas que arrasta a correnteza
A valsa nos levou nos gritos seus…
E amamos juntos… E depois na sala
“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala…
E ela, corando, murmurou-me: “adeus!”
(Castro Alves)

“A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna

Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.”
(Manuel Bandeira)

03) Madrigal tão engraçadinho – “Madrigal” é uma pequena composição poética. O lirismo amoroso surge do ponto de vista de uma criança que exalta o ser amado, porém por meio de uma comparação inusitada: o porquinho-da-Índia.
O grande momento do poema está nessa comparação, porque ela é sinônimo de sinceridade e alto valor.

04) A Virgem Maria – As figuras que aparecem na primeira estrofe revelam a realidade opressora e a morte se pronunciando. Ansiedade, ira e hipocrisia compõem o quadro do enterro até que, em oposição à escuridão e à morte, surge a imagem da Virgem Maria da qual o poeta só ouve a voz dizendo-lhe que “fazia sol lá fora”. É a vida, a liberdade.

05) Oração no Saco de Mangaratiba – O pedido do poeta a Nossa Senhora se dá em Mangaratiba, no Rio de Janeiro, e refere-se à vida. Enfadado, opõe a morte que o espreita, à vida que, apesar de comprida, lhe parece tão mal cumprida. Mistura duas variedades lingüísticas: escrita culta e uma modalidade da língua oral-popular. Versos eneassílabos.
Nossa Senhora me dê paciência
Para estes mares para essa vida!
Me dê paciência pra que eu não caia
Pra que eu não pare nesta existência
Tão mal cumprida tão mais comprida
Do que a restinga de Marambaia!…”

06) Poema tirado de uma notícia de jornal – A morte é o grande tema. Trata-se de uma notícia de jornal sobre a morte de mais um favelado. A miséria anônima e irônica (vem do alto, no morro da Babilônia, como o jardim suspenso da Babilônia) desce e chega à Lagoa Rodrigo de Freitas (lugar da classe alta no Rio de Janeiro). O drama e o elemento narrativo unem-se ao ritmo: versos longos na introdução e no desfecho. Versos curtos, dissílabos quando se trata do prazer.
“João Gostoso era carregador da feira-livre e morava no morro da Babilônia num  barracão sem número
Uma noite ele chegou no Bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.”


07) Andorinha – A vida, simbolizada pelo pássaro, é o exterior, o mundo, o cotidiano, todas as “coisas” que contrastam com o sofrimento, a tristeza do poeta que constata: não pôde viver o que queria, passou a vida à toa e, agora, só a morte o aguarda.

08) Evocação do Recife – A subjetividade, o memorialismo, a infância, o folclore e a cultura popular caracterizam esse famoso poema de Manuel Bandeira.
. O eu lírico revive cenas do passado, como se fosse menino outra vez.
. Surgem pessoas com as quais conviveu: parentes, vizinhos, amigos. Até os nomes das ruas eram líricos: Rua da União, do Sol, da Aurora.
. A morte reforça que a cidade de Recife de seu passado fora-se como seu avô, restou-lhe apenas a memória.
“Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
— Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância”

09) Não sei dançar – Poema que abre o livro Libertinagem e traz elementos típicos da primeira geração modernista: os versos livres e brancos, aproximação do surrealismo, referência ao carnaval e à mistura de raças, às doenças “tropicais” e à crítica irônica à indiferença. Os prazeres escapistas acenam para o poeta.

10) O major – como apregoavam os modernistas, a poesia nasce a qualquer momento, é concebida pelo encontro com situações mais diversas do cotidiano. A beleza se esconde nos fatos mais banais, a ternura está nas coisas mais simples.
O major morreu.
Reformado.
Veterano da Guerra do Paraguai.
Herói da ponte do Itororó.
Não quis honras militares.
Não quis discursos.”

11) Pneumotórax – Refere-se à doença de Manuel Bandeira – a tuberculose. A morte, novamente em evidência, é tratada em tom jocoso da primeira geração modernista: humor negro, coloquialismos, auto-ironia, além da técnica de marcação teatral com o emprego do diálogo.
“Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
…………………………………………………………………………………

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.”


12) Irene no Céu  - Embora o poema refira-se à imagem de uma pessoa querida pelo poeta, presente em sua infância, Irene representa também a mulher escrava, submissa, inferiorizada. O poeta sutilmente opõe a relação branco e negro na segunda estrofe, onde Irene pede licença a São Pedro, chamando-o de meu branco.
“Há ainda a exaltação à linguagem coloquial. A fala de São Pedro ordena: “- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.” Na linguagem normativa, o correto seria conservar o tu ou empregar o verbo na 3ª pessoa do singular. Assim, teríamos:
- Entra, Irene. Tu não precisas pedir licença
- Entre, Irene. Você não precisa pedir licença “

13) Vou-me Embora Pra Pasárgada  - Nesse poema, Bandeira busca a utopia, a evasão, o lugar onde possa realizar-se, onde fuja da morte, onde se mesclem os elementos reais e o nonsense, onde a doença não será empecilho porque simplesmente não existirá, onde a infância será revivida e os homens e mulheres que participaram de sua vida, presentes, representados por Rosa.
“Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.”

14) Poema de Finados – A morte a autocomiseração. Na primeira estrofe, o poeta dirige-se a um interlocutor – tu – refere-se a cemitério e à sepultura do pai; na segunda, ao ritual de se colocar flores na sepultura e orar. Na terceira estrofe, a explicação: o sofrimento, a amargura, já não há mais nada. Sente-se um morto vivo. Versos octossílabos
Amanhã quem é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.”

15) Poética – Espécie de plataforma teórica da poesia modernista, Poética é um texto de propostas e críticas. Propostas modernistas e críticas ao tradicionalismo, representado pela estética parnasiana. Propõe a liberdade de expressão, a autenticidade, rompendo com o parnasiano tanto no plano do significante quanto do significado. Trata-se, portanto, de um poema metalingüístico.
“Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
[...]
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.”

16) Lenda brasileira – Trabalha mitologia, a epifania, o humor e evasão.
“A moita buliu. Bentinho Jararaca levou a arma à cara : o que saiu do mato foi o veado Branco! Bentinho ficou pregado no chão. Quis puxar o gatilho e não pôde.
- Deus me perdoe!
Mas o Cussarim veio vindo, veio vindo, parou junto  do caçador e começou a comer devagarinho o cano da espingarda.”

17) Macumba do Pai Zusé – Evasão, morte e aspectos do Brasil.
“Na macumba do Encantado
Nego véio pai de santo fez mandinga
No palacete de Botafogo
Sangue de branca virou água
Foram vê estava morta!”

18) Camelôs – A poesia do cotidiano, evasão e evocação da infância.
“Abençoado seja o camelô dos brinquedos de tostão:
O que vende balõezinhos de cor
O macaquinho que trepa no coqueiro
O cachorrinho que bate com o rabo
Os homenzinhos que jogam boxe
A perereca verde que de repente dá um pulo que engraçado
E as canetinhas-tinteiro que jamais escreverão coisa alguma.”

19) O cacto – A poesia do cotidiano, metalinguagem e reflexão. Envolve conceitos e conhecimentos da história da arte e da mitologia, até se envolver na dura realidade do seco Nordeste, evocado a partir de sua árvore-símbolo.
“Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas
[privou a cidade de iluminação e energia:
- Era belo, áspero, intratável.”

20) Comentário musical – A poesia do cotidiano e epifania.
“O meu quarto de dormir a cavaleiro da entrada da barra.
Entram por ele dentro
Os ares oceânicos,
Maresias atlânticas:
São Paulo de Luanda, Figueira da Foz, praias gaélicas da Irlanda…”

21) Pensão familiar – Paródia da linguagem jornalística. Denúncia da insensibilidade da imprensa. Fatos são narrados de forma impessoal. Linguagem seca, sintética e referencial.
“Jardim da pensãozinha burguesa.
Gatos espapaçados ao sol.
A tiririca sitia os canteiros chatos.
O sol acaba de crestar as boninas que murcharam.
Os girassóis
amarelos!
resistem.”

22) Namorados – Coloquialismo, ironia e bom humor.
“O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
— Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com a sua cara.
A moça olhou de lado e esperou.
— Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta
listada?
A moça se lembrava:
— A gente fica olhando…
A meninice brincou de novo nos olhos dela.
O rapaz prosseguiu com muita doçura:
— Antônia, você parece uma lagarta listada.
A moça arregalou os olhos, fez exclamações.
O rapaz concluiu:
— Antônia, você é engraçada! Você parece louca.”

23) Profundamente – o poeta confunde os tempos em função da emotividade. Aí surgem os avós, a saudade do passado identificada pelas vozes de um tempo remoto, encarcerados na memória dos seus seis anos. Dessa evocação surgem personagens como Totônio Rodrigues, Rosa, Tomásia.
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.”

24) Palinódia – É uma retratação poética. Algo que foi dito no passado é retificado no presente. Epifania, ludismo e experimentalismo.
“Quem te chamara prima
Arruinaria em mim o conceito
De teogonias velhíssimas
Todavia viscerais.
Hoje em verdade te digo
Que não és prima só
Senão prima de prima
Prima-dona de prima
- Primeva.”

  • Teogonia – gênese dos deuses (universo mitológico grego)
  • Primeva – retorno a tempos primordiais.

25) O impossível carinho – metalinguagem, evasão, lirismo e evocação da infância.
“Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
Eu soubesse repor –
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!”

26) Mulheres – A poesia do cotidiano, evocação da infância e leve erotismo.
“Como as mulheres são lindas!
Inútil pensar que é do vestido…
E depois não há só as bonitas:
Há também as simpáticas.”

27) O último poema – a ca­racterização autobiográfica é conduzida para recordações da infância, sempre tratada com melancólica proximidade; são relatadas as reminiscências mais longínquas do poeta, que refletem a amargura de perceber-se contemplando o final de uma vida poética:
Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

28) O anjo da guarda – Singela homenagem que o poeta faz à irmã morta. Memorialismo, lirismo e evasão.
“Quando minha irmã morreu,
(Devia ter sido assim)
Um anjo moreno, violento e bom,
- brasileiro.
Veio ficar ao pé de mim.
O meu anjo da guarda sorriu
E voltou pra junto do Senhor.”

29) Chambre vide – A poesia do cotidiano e reflexão.
“Petit chat blanc et gris
Reste encore dans la chambre
La nuit est si noire dehors
Et le silence pèse.”

30) Bonheur Lyrique – Autobiografia, melancolia e lirismo.
Coeur de phtisique
O mon coeur lyrique
Ton bonheur ne peut pas être comme celui des autres
Il faut que tu te fabriques

31) Mangue - traços da piedade Cristã mesclados à religião afro-brasileiras “Mangue”.
“Mangue mais Veneza americana do que o Recife
Cargueiros atracados nas docas do Canal Grande
O Morro do Pinto morre de espanto
Trapiches alfandegados
Catraias de abacaxis e de bananas
Há macumbas no piche
Eh cagira mia pai
Eh cagira
E o luar é uma coisa só”

32) Belém do Pará – Memorialismo, lirismo e exaltação da pátria.
“Bembelelém
Viva Belém!
Belém do Pará porto moderno integrado na equatorial
Beleza eterna da paisagem
Bembelelém
Viva Belém!

33) Cunhantã – A poesia do cotidiano, lirismo e aspectos do Brasil.
“Vinha do Pará.
Chamava Siquê.
Quatro anos. Escurinha. O riso gutural da raça.
Piá branca nenhuma corria mais do que ela.”

34) Cabedelo – Evasão, melancolia, lirismo e intertextualidade.
“Viagem à roda do mundo
Numa casquinha de noz:
Estive em Cabedelo.
O macaco me ofereceu cocos.”

35) Noturno da rua da Lapa – Autobiografia, melancolia, epifania e experimentalismo.
“A janela estava aberta. Para o que não sei, mas o que entrava era o vento dos lupanares, de mistura com o eco que se partia nas curvas cicloidais, e fragmentos do hino da bandeira.
Não posso atinar no que eu fazia: se meditava, se morria de espanto ou se vinha de muito longe.”

36) Na boca – Autobiografia e pessimismo.
“Sempre tristíssimas estas cantigas de carnaval
Paixão

Ciúme
Dor daquilo que não se pode dizer”.

37) Noturno da parada Amorim – Epifania e evasão.
“O violoncelista estava a meio do Converto de Schumann
Subitamente o coronel ficou transportado e começou a gritar:
- Je vois des anges! Je vois des anges!
- E deixou-se escorregar sentado pela escada abaixo.”

38) Oração a Teresinha do menino Jesus – Autobiografia, melancolia e evasão.
“Perdi o jeito de sofrer.
Ora essa.
Não sinto mais aquele gosto cabotino da tristeza.
Quero alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!
Santa Teresa não, Teresinha…
Teresinha… Teresinha…
Teresinha do Menino Jesus.”

Mal Secreto – RAIMUNDO CORREIA

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;
Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!
Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!
Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!