ROSÂNGELA NERES

Rosângela Neres

Mestre em Língua Portuguesa/Doutoranda em Literatura e Cinema

Profa. de Língua Portuguesa da Universidade Estadual da Paraíba

Blog: http://rosangelaneres.wordpress.com/

Twitter: http://twitter.com/rosangelaneres

Email: rosei2@yahoo.com



Jordélia : Professora, você tem mestrado e em breve doutorado. Sabe-se que não é fácil fazer esse percurso. Por Favor, conte-nos como foi sua trajetória acadêmica?

Rosângela : Foi bastante longa e cheia de altos e baixos, acredito que como a de muitos outros profissionais. Ao contrário daqueles que se orgulham de dizer que estudaram a vida toda na escola particular, eu me orgulho de dizer sempre que fui uma afortunada aluna da escola pública, na época do ensino de qualidade, com professores comprometidos e dedicados à docência. Fiz o curso fundamental e parte do ensino médio em escolas públicas, na época dos governos militares, os quais, apesar dos problemas políticos, valorizavam grandemente a educação moral e cívica, a religião, e enalteciam o estudo da língua materna e das línguas estrangeiras. Sempre fui muito feliz em ter recebido uma educação de qualidade e ter sido incentivada a ler muitos dos clássicos da nossa literatura, ainda em minha pré-adolescência. Depois, veio o vestibular e a decisão crucial de escolher um bom curso. Eu sempre quis ser professora de Língua Portuguesa, então, Letras foi a minha opção no vestibular. Na faculdade, fui uma aluna ativa e muito participante dos processos de crescimento acadêmico, pois fiz pesquisa de Iniciação Científica em Variação Linguística, um pontapé inicial para o meu mestrado na mesma área, e vários cursos de extensão oferecidos pela universidade. Após o mestrado, iniciei minha longa jornada pelas salas de aula, e fui professora de português, redação e literatura no Ensino Fundamental, Médio e no Cursinho, o que contam, se não me falha a memória, cinco longos anos em turmas de, no mínimo, sessenta alunos. Na UEPB, já são sete anos galgados no ensino da Língua Portuguesa para turmas formandas. O doutorado veio como aplacamento de um desejo antigo de voltar a estudar Literatura Inglesa, por isso, decidi modificar minha área de atuação e estou na reta final de minha pesquisa em Literatura e Cinema, trabalhando com a autora inglesa Virginia Woolf e sua literatura existencialista. E se você ainda me perguntar se continuarei a estudar, a resposta é sim, pois já tenho planos para o pós-doutoramento, possivelmente em 2015.



Jordélia : Por que escolheu trilhar a carreira acadêmica? Foi uma escolha planejada ou ela foi acontecendo pouco a pouco?


Rosângela : Totalmente planejada. Eu sempre gostei muito de estudar e isso é meio caminho andado para a academia. Não se concebe o professor que não estuda, que não se atualiza e está sempre em busca de inovações em sua área de atuação. Do amor pelos estudos surgiu a vontade imensa de ensinar e assim tornei-me professora. Os professores magníficos que tive também foram um grande incentivo e sou muito grata a eles pela dedicação e apreço com que entravam, todos os dias, em sala de aula, meio que “contaminado” a gente de vontade de também ser professor.


Jordélia : Professora, além de intelectual, a senhora sempre foi bem quista entre seus alunos de graduação/licenciatura, sempre conhecida por sua dedicação e afeto aos alunos e à profissão. Gostaria que falasse, por gentileza, um pouco sobre essa relação.

Rosângela : A relação professor-aluno para mim é a base de todo o processo de ensino-aprendizagem. Não consigo conceber uma aprendizagem que parte do vácuo ou da grosseria, da ignorância, da ameaça e do medo. Para mim, a mediação de conhecimentos é fundamental para que ambos, aluno e professor, possam aprender um com o outro. Paulo Freire dizia que “Mestre não é aquele que ensina, mas o que, de repente, aprende.” Existe tanto conhecimento inato em meus alunos e tantas são as minhas descobertas a respeito disso, que me sinto privilegiada e feliz de poder trabalhar com eles, de aprendermos juntos, não apenas os conteúdos teóricos da sala de aula, mas saber transformar esses conteúdos na própria vida e no universo diversificado que existe em cada um de nós. Acho que a relação professor-aluno não é propriamente acadêmica, mas é sim uma relação de vivências e experiências ímpares. E muitos de meus alunos nunca negligenciaram o fato de nossa boa relação e nunca a viram como algo permissivo ou descontextualizado. Sempre trabalhamos juntos na construção do saber, norteados pelo respeito mútuo, pela exigência construtiva e pela certeza do nosso engrandecimento como acadêmicos.



Jordélia : Qual o sentido, para você, de ser educadora?

Rosângela : É a própria vida. Ensinar me dá fôlego e sustentação para enfrentar os mais rígidos desafios, os mais complexos conteúdos e os altos e baixos de uma profissão que, muitas vezes, é desvalorizada e desprestigiada. Não existe recompensa maior para uma educadora do que poder ver seu aluno crescer academicamente, falar com eloqüência, discutir os assuntos da atualidade, ter discernimento sobre a própria prática da vida em sociedade. Isso é revigorante e faz com que, mais e mais, a vontade de mediar conhecimentos com aqueles que valorizam a academia seja o sentido de toda a nossa existência.



Jordélia : No Brasil, as mudanças de modelos educacionais acabam não amadurecendo e o que se tem visto são avaliações baixas do sistema educacional, universidades em todas as esquinas, um baixo nível acadêmico, alunos cada vez mais alienados, um sistema que privilegia quem pode pagar, etc… Para você, qual o reflexo disso?

Rosângela : Sinto muito, muitíssimo, que a educação não seja valorizada como deveria. Mas, como sempre digo em sala de aula, essa situação é muito conveniente para nossos governantes. O investimento em educação de qualidade originaria cidadãos comprometidos, de verdade, com sua cidadania. Esses mesmos cidadãos elegeriam os melhores governantes, exigiriam melhorias de vida e um sistema de saúde e educação capaz de competir com o dos países mais desenvolvidos. O problema do sucateamento da educação é um problema de ordem política, é o interesse da classe dominante. Sentido-se inferior a tudo e vítima do descaso dos governantes, o povo se anula e se deixa levar pela falta de comprometimento dessas pessoas. Sei que a tomada de ação voluntária é um ato muito difícil, mas se as pessoas reconhecessem o poder que teriam através da educação, uma nova era na base social brasileira seria implementada. Infelizmente, já se criou um círculo vicioso de professores que sucumbiram ao descaso e que, de um modo ou de outro, desistiram de lutar por melhoria. De outro lado, estão os que são bem pagos, mas não trabalham, porque não gostam de ensinar e simplesmente escolheram sobreviver ao sistema, e ganharem o seu dinheiro. Quem perde com isso são aqueles que poderiam ter se tornado verdadeiros cidadãos. O reflexo do caos da pseudo-educação que temos nesse país é um sujeito apático, descompromissado e intolerante. Há muita profissionalização de ensino superior nos dias de hoje, mas acredito ser questionável o número de profissionais que saibam realmente o porquê de dois e dois ser quatro.




Jordélia : Muito obrigada Professora, para mim foi uma honra entrevistá-la.

Rosângela : Imagina, você ficar me agradecendo pela entrevista. Eu adoro falar sobre a academia e me sinto honrada de você lembrar sempre de mim.

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