O Romance do pavão misterioso – José Camelo de Melo Resende

O ROMANCE DO PAVÃO MISTERIOSO
(José Camelo de Melo Resende)
Cordel
A literatura de cordel nordestina é uma manifestação da cultura popular tradicional. Nascida no interior do nordeste, espalhou-se por todo o país, pelo processo migratório do sertanejo-nordestino. O folheto é a forma tradicional de impressão. Escritos de forma rimada e alguns poemas são ilustrados.
O cordel é assim chamado pelo fato dos folhetos serem expostos pendurados em barbantes e vendidos em feiras em Portugal. A nomenclatura espalhou-se no Brasil (muitos dos nossos cordelistas não perpetuaram a tradição de pendurar folhetos em barbantes e os vendem em bancas ou no chão). No nordeste, o nome dado é “folhetos” ou “romance”. Nas feiras de João Pessoa, Campina Grande e nas cidades de interior como Guarabira, Areia, Sapé … é bastante comum encontrar esses livrinhos tão cheios de cultura.
O enredo
“O Pavão Misterioso”, folheto de cordel, possui 141 estrofes de seis versos (sextilhas) de sete sílabas (redondilha maior). Conta a história da Condessa Creuza, a moça mais bonita da Grécia, conservada pelo pai trancada desde a infância no mais alto quarto do sobrado.Uma vez no ano, a moça aparece por uma hora ao povo, que vem de longe, só para contemplar-lhe a beleza. Um retrato dela chega até a Turquia, onde mora Evangelista, que se apaixona pela bela figura da jovem. Dirigindo-se à Grécia, ele encomenda a um engenheiro um mecanismo alado – o Pavão Misterioso do título – a bordo do qual consegue chegar até o quarto da moça, raptando-a, depois de vários perigos e dificuldades.
Características e temas da obra
a) “O Pavão Misterioso” é um folheto cujos “objetos misteriosos(objetos mágicos)” possuem um quê de realidade:
“Foram experimentar
Se tinha jeito o pavão
Abriram a lavanca e chave
Encarcaram num botão
O monstro girou suspenso
Maneiro como balão”.
Além do pavão propriamente dito, há ainda no folheto a presença de uma serra, facilmente identificável com nossas atuais serras portáteis. Com ela, Evangelista, o herói, depois de aterrar silenciosamente com seu pavão-helicóptero na cumeeira do palácio do Conde, praticava uma abertura pela qual podia descer e contemplar a sua amada Creuza:
“Edmundo ainda lhe deu
Uma serra azougada
Que serrava caibro e ripa
Sem que fizesse zoada
Tinha dentes de navalha
De gume bem afiada.”
Entra em cena o outro objeto, o lenço enigmático, que nada mais devia ser do que um lenço embebido em clorofórmio, anestésico e desmaiante:
“Deu-lhe um lenço enigmático
Que quando Creuza gritava
Chamando pelo pai dela
Aí o moço passava
Ele no nariz da moça
Com isso ela desmaiava!”.
b) N’O Pavão Misterioso está onipresente a tecnologia, a ciência, e uma exposição clara da mágica subjacente aos objetos. Pode-se dizer que, n’O Pavão, a Ciência assume o status da magia, realizando prodígios, apontando soluções, desenvolvendo estratégias, demonstrando uma vez mais que a magia é parceira e precursora da ciência.
“Movido a motor elétrico
Depósito de gasolina
Com locomoção macia
Que não fazia buzina
A obra mais importante
Que fez em sua oficina.
Tinha cauda como leque
As asas como pavão
Pescoço, cabeça e bico
Lavanca, chave e botão
Voava igualmente ao vento
Para qualquer direção.
– Eu fiz o aeroplano
da forma de um pavão
que arma e se desarma
comprimindo em um botão
e carrega doze arroba
três léguas acima do chão”.
Outros exemplos: a presença dos fotógrafos que se atropelam uns aos outros para tirar o retrato de Creuza e depois vendê-lo; a indelével “banha amarela” que a moça, meio a contragosto, mas obedecendo ao pai, passa na cabeça de Evangelista para que ele possa ser identificado depois.
Finalmente, um telegrama substitui o “mensageiro” ou o “portador”, levando as notícias no final da história.
“Enquanto Evangelista
Gozava imensa alegria
Chegava um telegrama
Da Grécia para Turquia
Chamando a condessa urgente
Pelo motivo que havia”.
c) Espaço e tempo se movimentam. A obra é marcadamente cronológica e os ambientes são descritos com clareza (Turquia, Japão e Grécia).
“Residia na Turquia”
(…)
“Depois que o velho morreu”
(…)
“E seguiu para o Japão”
(…)
“Depois voltou para a Grécia”
(…)
“Logo no segundo dia”
(…)
“Depois de sessenta dias”
(…)
“Na cidade de Atenas
Estava a população
Esperando pela volta
Do aeroplano pavão
Ou o cavalo do espaço
Que imita um avião”.
d) Semelhança com as narrativas medievais: a filha trancafiada numa torre e o herói que vai resgatá-la numa aventura de amor.
“À meia-noite o pavão
Do muro se levantou
Com as lâmpadas apagadas
Como uma flecha voou
Bem no sobrado do conde
Na cumeeira pousou.
A donzela estremeceu
Acordou no mesmo instante
E viu um rapaz estranho
De rosto muito elegante
Que sorria para ela
Com um olhar fascinante”.
e) Endeusamento da figura feminina.
A donzela estremeceu
Acordou no mesmo instante
E viu um rapaz estranho
De rosto muito elegante
Que sorria para ela
Com um olhar fascinante.
– De ano em ano essa moça
bota a cabeça de fora
para o povo adorá-la
no espaço de uma hora
para ser vista outra vez
tem um ano de demora.
Respondeu João Batista
- Creuza é muito mais formosa
do que o retrato dela
em beleza é preciosa
tem o corpo desenhado
por uma mão milagrosa.
f) Autoritarismo do pai da moça.
“O conde não consentiu
Outro homem educá-la
Só ele como pai dela
Teve o poder de ensiná-la
E será morto o criado
Que dela ouvir a fala”.
g) Presença da curiosidade, elemento incontrolável no ser humano.
“Os estrangeiros têm vindo
Tomarem conhecimento
Amanhã quando ela aparece
No grande ajuntamento
É proibido pedir-se
A mão dela em casamento.
Então disse João Batista
– Agora vou me demorar
pra ver essa condessa
estrela desse lugar
quando eu chegar à Turquia
tenho muito o que contar”.
h) Manifestações do capitalismo.
→ Símbolo de riqueza:
“Logo que chegou na Grécia
Hospedou-se Evangelista
Em um hotel dos mais pobres
Negando assim sua pista
Só para ninguém saber
Que era um capitalista”.
→ Símbolo de vantagem:
“Logo no segundo dia
Creuza saiu na janela
Os fotógrafos se vexaram
Tirando o retrato dela
Quando inteirou uma hora
Desapaeceu a donzela.
Logo no segundo dia
Creuza saiu na janela
Os fotógrafos se vexaram
Tirando o retrato dela
Quando inteirou uma hora
Desapareceu a donzela”.
i) Ideal de felicidade.
→ Evangelista: casar com Creuza
“– Todo o meu sonho dourado
é fazer-te minha senhora
se quiseres casar comigo
te arrumas e vamos embora
senão o dia amanhece
e se perde a nossa hora”.
→Creuza: viver a mocidade
“Disse Creuza: – Ora papai
Me prive da liberdade
Não consente que eu goze
A distração da cidade
Vivo como criminosa
Sem gozar a mocidade”.
→ João Batista: viajar para o estrangeiro
“Um dia João Batista
Pensou pela vaidade
E disse a Evangelista:
– Meu mano eu tenho vontade
de visitar o estrangeiro
se não te deixar saudade”.
→ Conde: dominar a vida da bela filha única
“– É a moça em que eu falo
Filha do tal potentado
O pai tem ela escondida
Em um quarto de sobrado
Chama-se Creuza e criou-se
Sem nunca ter passeado”.
→ Mãe de Creuza: ver a felicidade e liberdade da filha
“Disse a velha: – Minha filha
Saíste do cativeiro
Fizeste bem em fugir
E casar no estrangeiro
Tomem conta da herança
Meu genro é meu herdeiro”.
→ Edmundo: criar nova arte engenhosa
“Quando Edmundo findou
Disse a Evangelista:
– Sua obra está perfeita
ficou com bonita vista
o senhor tem que saber
que Edmundo é artista”.
j) Ápice da vitória: o casamento.
“Em casa de João Batista
Deu-se grande ajuntamento
Dando vivas ao noivado
Parabéns ao casamento
À noite teve retreta
Com visita e cumprimento”.
k) Simbologia do pavão:
→ Invenção de artista
“O grande artista Edmundo
Desenhou nova invenção
Fazendo um aeroplano
De pequena dimensão
Fabricado de alumínio
Com importante armação”.
→ Amor
“Então dizia um soldado:
– Orgulho é uma ilusão
um pai governa uma filha
mas não manda no coração
pois agora a condessinha
vai fugindo no pavão”.
→ Liberdade
“O pavão de asas abertas
Partiu com velocidade
Coroando todo o espaço
Muito acima da cidade
Como era meia noite
Voaram mesmo à vontade”.
→ Confidência: o pavão era cúmplice de Evangelista
“Então disse o jovem turco:
– Muito obrigado fiquei
do pavão e dos presentes
para lutar me armei
amanhã a meia-noite
com Creuza conversarei”.
l) Ave dicotômica.
→ Aparência de realidade: simulação de um pássaro
→ Função abstrata: realização do amor
“À meia-noite o pavão
Do muro se levantou
Com as lâmpadas apagadas
Como uma flecha voou
Bem no sobrado do conde
Na cumeeira pousou”.
m) O acróstico – poema em que as letras iniciais de cada verso, quando lidas verticalmente, formam uma palavra ou frase.
“J ustiça, só a de Deus,
O juiz que já não era,
S enhor que, do Céus pra Terra,
E stende os poderes seus!
C omo somos pigmeus,
A Ele não enxergamos,
M as, contudo, precisamos
E naltecer Sua luz,
L embrarmos que, com Jesus,
O Satanás afastamos!

Os folhetos de cordel fazem parte da minha adolescência, pois no meu sertão do nordeste, os catadores ou violeiros, tnham como ofício decorar o conteúdo dos folhetos de cordel para saorem cantandos e até ganhando a vida. Todos os presentes às cotorias pagavam para ouvirem as histórias épicas com muita verossimilhança.
Eu vou contar a história
de um rapaz corajoso
que voo sobre um pavão
por um ceu tenebroso
para raptar uma condessa
filha de um conde orgulhoso.
Na verdade eu não decorei a primeira estrofe do folheto de cordel do Pavão Misterioso. Apenas deixar a minha homenagem à literatura de cordel.
Um abraço Grande.
Obrigada por colaborar com o site. Obrigada mesmo!
Esta e uma das historias que mais gosto que meu avo conte, apesar que a cada ano ele se vá esquecendo dos detalhes, pois já se vão 86 anos.